Entrevistas

Nutrição caseira de cães e gatos.

Sylvia Angélico é médica veterinária especializada em alimentação natural caseira para cães e gatos. Graduada também no curso de jornalismo, a especialista criou o portal Cachorro Verde, pioneiro em informações deste segmento no Brasil. 

Em entrevista para a Agência Notícia Animal, Sylvia explica o embasamento técnico do seu trabalho, bem como suas vantagens e recomendações. São dicas essenciais para pessoas que buscam aprimorar a qualidade de vida dos seus pets, com alternativas menos industrializadas de nutrição animal.


Mas vale ressaltar a principal recomendação da veterinária: A nutrição caseira não baseia-se no conceito de alimentar os pets com restos de comida humana. Trata-se de um cardápio adequado e equilibrado às necessidades específicas de cada animal, por isso deve ser feita com acompanhamento de um especialista!
Notícia Animal - O portal "Cachorro Verde" destaca-se pelo enfoque prioritário na alimentação caseira para cães e gatos. Quais as vantagens deste tipo de alimentação para a saúde dos pets?
Sylvia Angélico - A alimentação natural contém 70% de água (umidade), o que melhora a digestão dos ingredientes e favorece a saúde dos rins e trato urinário. Não contém aditivos químicos controversos, como conservantes, flavorizantes sintéticos, aglutinantes etc. É atraente ao paladar dos pets por ser úmida, variada e minimamente processada. Pode ser minimamente customizada a cada caso. Por exemplo: um cão idoso com problema cardíaco e alergia poderá receber uma dieta formulada sob medida para ele, assim como uma cadela atleta jovem que tem propensão à formação de cálculos urinários, e o gato de meia-idade que tem gastrite e doença hepática. Em relação a preço, uma ótima alimentação natural caseira pode ser significativamente mais em conta que ração de categoria Super Premium. Essa diferença de preço é ainda mais gritante no que diz respeito às rações terapêuticas, aquelas indicadas para controle de doenças crônicas, que costumam ser caríssimas.
Notícia Animal - A comida caseira supre as necessidades dos animais tanto quanto as rações?
Sylvia Angélico - Uma dieta caseira balanceada, formulada por um veterinário com conhecimento em nutrição de cães e gatos deve suprir todas as necessidades nutricionais do animal e, por poder ser personalizada de acordo com cada caso, ela pode ser nutricionalmente superior à nutrição proporcionada pelas rações, uma vez que pode contar com a adição de alimentos funcionais, nutracêuticos, alimentos orgânicos, etc. Além disso, os alimentos in natura preservam elementos nutricionais como enzimas, minerais-traço e vitaminas sensíveis aos processamentos industriais e que ainda não puderam ser introduzidas às formulas dos alimentos comerciais, mas que podem beneficiar a saúde dos animais.
Notícia Animal - O tutor que optar por alimentar seu animal dessa forma deve realizar um acompanhamento conjunto com um médico veterinário?
Sylvia Angélico - O ideal é contar sim com acompanhamento de um médico veterinário com conhecimento de nutrição de cães e gatos. Esse cuidado vai garantir que seja instituída uma dieta adequada ao quadro daquele animal e que periodicamente ele seja reavaliado para controle do peso e dos parâmetros de saúde.
Notícia Animal - Uma dieta caseira específica pode prevenir ou curar doenças em animais?
Sylvia Angélico - O controle de algumas doenças depende em grande parte de um controle dietético adequado, como diabetes, gastrite ou alergias de causa alimentar. Em outros casos, a dieta pode contribuir reforçando o sistema imunológico, reduzindo a carga de elementos prejudiciais ou mesmo restabelecendo o apetite e o bem-estar do animal convalescente. Além disso, uma dieta bem balanceada, fresca, rica e variada contribui significativamente para a prevenção de doenças, incluindo o câncer e doenças crônicas ligadas a desequilíbrios bioquímicos e o desgaste precoce dos órgãos.
Notícia Animal - Cães e gatos são animais carnívoros, diferentemente do homem que, por ser onívoro, tem mais facilidade em se adaptar ao vegetarianismo, se assim escolher. Como especialista em nutrição animal, você acha que uma dieta vegetariana pode complementar todos os nutrientes que cães e gatos necessitam para viver? 
Sylvia Angélico - É possível alimentar cães como vegetarianos. É preciso adotar uma formulação balanceada que compense as limitações nutricionais de uma dieta restrita de modo a suprir os requerimentos dos cães. O cão alimentado como vegetariano deve ter a saúde monitorada bem de perto pelo veterinário, com solicitação periódica de exames, para verificar se a dieta não está causando problemas por excessos e/ou carências de nutrientes.  Pessoalmente, não recomendo esse tipo de dieta por acreditar que quando nos afastamos do modelo natural de alimentação de uma espécie, algo moldado pela natureza ao longo de milênios de evolução, abrimos a porta para uma série de possíveis problemas de saúde.
Os gatos são ainda mais carnívoros que os cães. Evoluíram para consumir praticamente apenas presas. Uma dieta vegetariana pode trazer ainda mais riscos aos gatos porque o organismo deles têm bastante dificuldade de aproveitar nutrientes de origem vegetal e seu requerimento de proteína, aminoácidos e ácidos graxos é mais elevado que os dos cães. Seria o mesmo que adaptar a dieta de um animal herbívoro – um cavalo, um coelho – ao consumo de carnes, vísceras, ovos. Muito arriscado e, na minha opinião, um profundo desrespeito à natureza do animal. Acredito que os animais devem ser alimentados de acordo com sua espécie, e não em função das nossas projeções humanas.
Notícia Animal - A comida cozida é mais macia. Ela pode comprometer a dentição dos animais? Se sim, de que forma os tutores podem prevenir o desenvolvimento de doenças bucais nos seus pets?
Sylvia Angélico - Uma alimentação natural crua, composta por carnes contendo ossos crus é muito eficiente na manutenção da saúde dos dentes e gengivas de cães e gatos. Mas, se o tutor optar pela alimentação natural cozida ele pode oferecer regularmente ossos naturais crus para o pet roer, e assim, manter os dentes limpos graças à ação mecânica do atrito entre os dentes e os ossos. Ou, pode também manter uma rotina diária de escovação dos dentes do pet, com escova e creme dental próprios para pets.
Notícia Animal - Do ponto de vista comportamental na relação entre tutores e pets, você acha que a alimentação caseira tende a aproximar este laço afetivo?
Sylvia Angélico - O envolvimento ativo do tutor na alimentação do pet acaba sendo sim uma forma de reforçar seus vínculos com o pet, já que dessa forma o tutor participa do preparo e da seleção dos alimentos e fica mais atento aos sintomas que o pet apresenta. O pet, por sua vez, pode ficar mais atento ao dono, já que uma dieta caseira é variada e mais palatável e isso acaba aumentando o apetite e o prazer do pet na hora das refeições. Muitos tutores relatam que o momento do preparo das refeições é o momento mais prazeroso do dia.
Notícia Animal - Você já encontrou resistência de outros veterinários por optar pela nutrição caseira no lugar das rações de fabricação industrial?
Sylvia Angélico - Sim, muitos veterinários no Brasil ainda se opõem à alimentação dos pets com dietas caseiras. Acredito que porque essa prática ainda é incomum por aqui, e muita gente ainda a confunde com a antiga prática de alimentar os pets com restos de comida humana – que não é apropriada e não é o que incentivamos no site Cachorro Verde. Somos a favor de dietas caseiras balanceadas e devidamente apropriadas para cães e gatos.
Notícia Animal - Cães e gatos podem ingerir quaisquer produtos de origem vegetal, como legumes, verduras e frutas? Qual é a lista de alimentos proibidos?
Sylvia Angélico - Os pets podem receber uma enorme variedade de alimentos, tanto de origem animal quanto de origem vegetal. Inclusive, quanto mais variada for a dieta, melhor – isso proporciona a ingestão de nutrientes variados que contribuirão de formas diferentes com todos os órgãos e sistemas do organismo. Basta ter o cuidado de seguir corretamente uma dieta balanceada e evitar alimentos potencialmente tóxicos para cães e gatos. Entre eles estão: cebola e alimentos preparados com cebola, chocolates ou alimentos que contenham chocolate, uvas e uva passa, carambola, macadâmias, pimentas, café, chá preto, bebidas alcoólicas, ossos que tenham sido cozidos, fritos ou assados; adoçantes químicos como aspartame e xilitol, ou alimentos que os contenham, batatas cruas ou germinadas. É muito importante evitar administrar medicamentos sem orientação de um médico veterinário – muitos medicamentos de uso humano podem ser tóxicos para cães, e mais ainda para gatos.
Fotos: Equipe Cachorro Verde

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Direitos dos animais. 

Tom Regan é professor emérito de Filosofia da Universidade do Estado da Carolina do Norte. É universalmente reconhecido como líder intelectual do movimento pelos direitos dos animais. Entre suas maiores contribuições estão Defending Animal Rights (2001),  Animal Rights, Human Wrongs: An Introduction to Moral Philosophy (2003). Seu mais novo livro Empty Cages: Facing the Challenge of Animal Rights, Maryland, 2004 (em português Jaulas Vazias, publicado pela Lugano) foi considerado como a melhor introdução aos direitos animais jamais escrita.
Em concedida por e-mail a IHU On-Line, no. 191, 14-8-2006, Regan definiu o que é vegetarianismo e veganismo e afirmou que o reconhecimento dos direitos dos animais é só uma extensão lógica do reconhecimento dos direitos humanos.

Confira a entrevista.
IHU On-Line - Como definiria o vegetarianismo e o veganismo? Quais são os benefícios dessas dietas?
Tom Regan – Vegetarianismo significa não comer carne animal. Isso inclui peixe e aves domésticas. Veganismo significa não comer carne animal assim como não comer produtos derivados de animais, como ovos e queijo. Ambas as dietas trazem importantes benefícios à saúde de seus praticantes. Por exemplo, ambas diminuem as chances de hipertensão, derrames, diabetes e infartos. Ambas também beneficiam o meio ambiente, pois quanto mais baixo na cadeia alimentar estiver nossa comida, menos o mundo natural é prejudicado. E, é claro, ambas trazem grandes benefícios aos animais, o veganismo principalmente.
IHU On-Line - Quais os direitos que os animais têm ou qual deveriam ter?
Tom Regan – Outros animais não possuem claramente todos os direitos que nós humanos possuímos. Por exemplo, o direito ao voto e à liberdade de crença religiosa: não faz sentido atribuir esses direitos a eles. Quando se trata de nossos direitos fundamentais, no entanto – direitos à liberdade, integridade física, e à vida – temos razão para acreditar que outros animais têm esses direitos. Por quê? A resposta mais simples, acho, apela para nossas semelhanças fundamentais, nossa igualdade moral. Considere os animais que a indústria transforma em comida, em roupa, em entretenimento, em competidores, em ferramentas. Esses animais são como nós não apenas porque estejam no mundo e cientes do mundo; mais que isso, o que acontece a eles faz diferença na qualidade e na duração de suas vidas, assim como é conosco. Nós e eles somos alguém e não alguma coisa. Nós e eles temos uma biografia, não simplesmente uma biologia. O reconhecimento dos direitos dos animais é só uma extensão lógica do reconhecimento dos direitos humanos.
Evolução dos direitos animais
Como várias mudanças globais, os direitos dos animais crescerão lentamente, dependendo de escolhas individuais feitas por pessoas individuais. Essa revolução moral será empreendida de pessoa para pessoa até atingir um certo ponto, e as mudanças se multiplicarão rapidamente e com grande intensidade. A esta altura, o movimento está no processo de construção de uma massa crítica. Se pudermos sustentá-la e construir sobre essa massa crítica, mudanças fundamentais poderão e irão ocorrer.
IHU On-Line - O que é "especiecismo"?
Tom Regan – Especiecismo é análogo a outros preconceitos morais. Racismo, por exemplo. Racistas pensam que membros de sua raça são superiores aos membros de todas as outras raças apenas porque eles (mas não outros) pertencem à raça superior. Especiecistas pensam que membros de nossa espécie são superiores a todas as outras espécies apenas porque nós (mas não outros) pertencemos à raça superior. Entretanto, assim como não há raça superior, não há também nenhuma espécie superior. A crença do especiecista não é menos preconceito que a crença do racista.
IHU On-Line - O vegetarianismo encontra apoio em alguma religião? Como é este apoio?
Tom Regan – Sim, o vegetarianismo é a dieta escolhida pelos praticantes de algumas das maiores religiões mundiais , incluindo o hinduísmo, jainismo , budismo e algumas linhas do judaísmo. Também foi praticado por várias das grandes figuras do passado, como, por exemplo, OvídioHorácioVirgílioPitágoras e Maimônides . As pessoas pensam que só excêntricos irracionais e desinformados são vegetarianos, mas a história ensina uma lição bem diferente.
IHU On-Line - O que o senhor acha das idéias de Peter Singer sobre os direitos dos animais?
Tom Regan – Peter Singer não acredita nos direitos dos animais. Essa é uma concepção errônea difundida sobre as idéias dele. (Para uma explicação mais completa, ver meu livro, Animal Rights, Human Wrongs: An Introduction to Moral Philosophy, ). Singer é um utilitarista. O que é certo ou errado, ele pensa, depende das conseqüências de nossas ações, e das conseqüências sozinhas. Então, para Singer, nada de errado é feito aos animais se eles forem usados em pesquisas que levem a conseqüências melhores que se a pesquisa não fosse feita, assim como nada de errado é feito para vacas e porcos se eles são mortos ("humanitariamente", ele insistiria), e as pessoas tenham uma refeição melhor que se tivessem comido salada de espinafre. Ninguém que acredite em direitos dos animais aceita isso. Nossos direitos nos protegem mesmo quando outros podem ganhar mais violando-os. O mesmo é verdadeiro quando os direitos dos animais estão em questão.
IHU On-Line - Quais os perigos que pode haver em interpretações filosóficas utilitaristas?
Tom Regan – Como expliquei no livro mencionado acima, utilitarismo pode justificar assassinato, roubo, assalto físico, até (e isso é algo que o próprio Singer defende) bestialidade . Esses são valores que eu pessoalmente abomino, motivo pelo qual eu não abraço o utilitarismo.
IHU On-Line - Com quais correntes filosóficas o senhor mais se identifica?
Tom Regan – Uma das principais influências em meu pensamento vem do filósofo Immanuel Kant , famoso por argumentar que devemos sempre tratar seres humanos como fins, nunca meramente como meios. Outra forma de expressar esse mesmo ponto é dizer que nós nunca devemos tratar-nos como coisas, como uma mesa ou cadeira, um computador ou um iPod. Minha filosofia, expressa mais simplesmente, envolve estender essas idéias kantianas ao nosso tratamento para com outros animais. Eu tento explicar isso de modo não técnico em meu livro mais recente, Jaulas vazias.
IHU On-Line - O senhor já comeu carne? Em que momento decidiu que não comeria mais carne?
Tom Regan – Eu comi carne por mais da metade da minha vida. Na verdade, quando eu era jovem, trabalhei como açougueiro. Durante esse período, eu tinha olhos, mas não enxergava; eu tinha ouvidos, mas não ouvia. Minha consciência foi acordada quando decidi lutar pra minimizar meu papel na violência desnecessária. Mahatma Gandhi foi uma grande influência. Foi por meio de seus escritos que aprendi pela primeira vez que comer carne não era 
necessário (para minha vida ou minha saúde, por exemplo) e que os animais em fazendas eram submetidos a uma grande violência, antes e durante seu abatimento. Não quero ter seu sangue em minhas mãos.
IHU On-Line - Como as pessoas podem ter uma alimentação ética? Quais os desafios da população mundial para obter esta ética na alimentação, levando em conta que grande parte da população vive na miséria?
Tom Regan – A situação que encaramos não é ou ajudar os humanos ou ajudar os animais. Podemos fazer as duas coisas. Por exemplo, podemos devotar muito de nosso tempo e dinheiro para ajudar a melhorar a saúde e as condições de vida de pessoas vivendo na pobreza, mas ao mesmo tempo podemos estar ajudando os animais não comendo sua carne ou usando suas peles. Na verdade, o melhor advogador da causa dos direitos humanos que eu conheço é também advogador dos direitos dos animais. E vice-versa. Os dois tipos de advocacia se complementam, elas não estão competindo.
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